terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

terror noturno 2

quando ainda tenho meus pesadelos recorrentes - ainda, sempre, toda vez- espero o abraço de alguém fazendo o choro passar. e quando eu mesma tenho de acalmar, quando eu mesma tenho de lembrar que, se não for por mim, os gritos ainda hão de continuar, há um desespero que me parte a alma.

me parte a alma tudo o que tá acontecendo. me parte a alma ainda ter pena de mim. me parte a alma mudar meus planos quando não fui nem eu mesma quem acabou com eles. doença, maldita doença. família. maldita família.

eu sei que, mesmo você não me vendo - ou mesmo você não me lendo -, ainda continuo fazendo parte da sua vida. paciência para você, paciência para mim. o que me dói - e acho que haverá de doer por muito tempo - é ver você se acabar quando eu o vi tão completo. é ver que nem sempre quem o gerou é do bem. e, principalmente, ver que eu tentei de tudo e foi em vão. tentar de tudo e mesmo assim não ter o retorno é simplesmente frustrante. estou frustrada.

continuo com meus pesadelos permeados de insônia. não sei até quando. não sei se quero viver tudo isso de novo. mas, enquanto isso, encaro meus pesadelos. os que você deixou e os que não me deixam dormir. na verdade, acho que eles são os mesmos.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Ao som de Bach

Ária na corda Sol. É um título lindo, sonoro, tanto quanto a música de Bach. Sempre gostara deste som, mesmo sem saber o que significava, ou para quem tinha sido feito, ou até mesmo se havia algum destinatário para a melodia. Era uma música linda, e pronto.

Gostava desde a infância. A mãe achava que era algo triste. "Isto é triste, tira isso!". Não via tristeza. Ou até mesmo chegava a ver, mas não compartilhava desta tristeza. Em certas ocasiões, percebeu, há beleza na tristeza.

Chegou a pesquisar sobre quem já havia utilizado a música. Opa, apareceu naquele anime que ela gostava. O primeiro que havia visto. Sabia que a recordação não era fingida: havia um quê de história - nem que fosse da própria - naquele sentimento todo por uma melodia que não teve acesso na infância. Aliás, a título de interesse não tão interessante, sons clássicos não eram de fato ouvidos em sua residência.

Voltou à pesquisa: teve aquele guitarrista, também, que ela gostava. E a música tava no MP3 do simulador de voo espacial. Aquele. Foi sim.

Mas o fato importante foi quando ela tava na casa dele - do moço da fala bonita, de sorriso bonito e de espiritualidade bonita - e ele pôs uma canção. "Tô te sentindo desconfortável aqui na sala, vamos ao quarto". Segue o medo e a vontade. Medo e vontade. Medo e vontade.

E olha, ele não aparentava nenhum objeto de perigo. Não era como aquele cara que sofria de efebofilia, ganhador de notoriedade por ter participado do reality show; e ela também não era mais nenhuma menina de 12 anos. Inclusive, some bastante idade. Não haveria de ter medo. "Pelo menos não ouvirei algo que me deixe sem graça. Ele é músico. Tem bom gosto", pensou. Obviamente que nunca disse aquilo a alguém, muito menos ao rapaz da fala bonita.

"Vou por uma música que eu gosto", disse o moço, após insinuar - e acertar - o gosto musical da mulher. E, adivinhem só como o destino é bonito: era Ária na corda sol. Ele até chegou a comentar que o grupo do CD em questão fazia os próprios instrumentos, e ela se sentiu triste por saber que aquela cultura toda não tinha divulgação.

E ele a beijou. Logo após a sentença dela. De surpresa. Como ela  gostava e como a música pedia.

Não foi como beijar-se a si mesma, como acontecera anteriormente, com outro rapaz mais bobo e em outra ocasião. Foi como beijar a própria música e, nossa, como ela sonhara com aquilo um dia. Beijar algo abstrato, algo que não se pode ter em mãos.

Ela conseguiu, afinal de contas. Beijara Ária na corda sol. Beijara Bach.Beijara o moço da fala bonita e espírito mais bonito ainda. Estava contente. Ele não precisava ligar, já tinha completado a missão.

    terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

    Terror noturno

    Dói saber que nunca mais vou te ver. Juro que penso nos bisturis que usava à epoca da outra faculdade pra cortar com mais precisão e observo um melhor uso para eles. Em mim. Em ti.

    Lembro dos sonhos que traçamos, até que a doença veio e tirou. Não sei o quanto disso é justo. Não sei se aguento.

    Penso de novo nos bisturis e.... Naaaaa

    segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

    Pecado

    Penso no momento que dizem que o arco-íris é a aliança do Pai com os filhos.

    Ele deve tá puto comigo.

    sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

    Divórcio

    É a pior e a melhor coisa que existe.
    É o que machuca e liberta, o que faz morrer e depois rir. O que traz a alegria e faz chorar rios de lágrimas porque não aguenta a carência.

    É querer ficar sozinha, mas correr pro colo da mãe.

    quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

    o dia que me beijei

    já havia se passado um mês desde que o outro se fora quando vi o moço das tatuagens. pelo menos, quando o vi sem camisa - mas sem nem um quê de sexo. o interessante a respeito do rapaz em questão é que, ao contrário daquele que se fora, este era igual a mim. talvez seja a coincidência das datas de nascimento. talvez todas as pessoas nascidas em tal dia beijem desse jeito, e façam pequenos gemidos na tentativa de atrair. foi a vez que vi como eu mesma atuava diante dos homens. e me apaixonei por mim mesma naquela ocasião: pelo meu jeito, meu abraço, meu cheiro.

    a falta de interesse no sexo - à primeira vista, pelo menos - também chama atenção. não sei se é falta de interesse, como dito (ah, como queria sua mão lá, meu anjo. como queria), ou se tenta dizer que é respeitoso. e eu tento tanto falar que sexo não é desrespeito, e que tal se fôssemos pra cama agora, mas infelizmente eu - assim como ele - tenho a ideia de que a copulação tem de vir em boa hora para que o relacionamento seja perfeito. assim como ele.

    me senti uma menina de doze anos tentando aprender a beijar o próprio reflexo no espelho. um reflexo tão contrário de mim - com olhos verdes e cabelos castanhos claros -, mas, ao mesmo  tempo, tão igual.

    é, é a comprovação de que somos seres atraídos pelo biotipo diferente, na busca de trazermos humanos melhores. uma mistura desigual e tão geneticamente indispensável. ah, bendita necessidade de sobrevivência. aquela que atrai o inesperado, o distinto. e que, espiritualmente falando, é tão similar

    quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

    olhos nos olhos

    Sabia que conseguiria viver sem o abraço de boa noite, ou sem o beijo da manhã. Sabia que podia ficar sem dar as mãos e estava completamente pronta para seguir em frente. Há pouco pensara que havia entregado os pontos, que não aguentava mais viver sem os pelos dele. Os pelos sempre farão dele um ser diferente e, por aqueles cabelos espalhados pelo corpo, ela haveria de amá-lo o resto da vida.

    Amar pelo resto da vida, no entanto, não significa deixar de viver. Haveria de deitar-se com outros homens, com um quê de Chico Buarque, pensando que quando ele pudesse revê-la, já haveria de encontrá-la refeita, e complementando ainda com uma frase que deixaria qualquer homem fora dos prumos. "Quantos homens me amaram bem mais e melhor que você!". Ela sabia, ainda, que a casa seria sempre dele, apesar de tudo.

    Podia sentir o vento no rosto, abandonar as pilhas de panelas e talvez lavar a roupa suja encostada. Já podia pensar em viver de novo. Sozinha, amando a si mesma. Completamente apaixonada pelo seu próprio corpo. Seria estranho no início, mas ninguém disse que viver era algo demasiado fácil.